Não-Lugares

O conceito e a prática.

Em 1995, o antropólogo francês Marc Augé usou em seu livro Não-Lugares o termo não-lugar. Ele se referia a um espaço de passagem sem significado suficiente para se tornar um lugar ou ter qualquer tipo de identidade, ou seja, algo que serve apenas como local de transição e com o qual não criamos qualquer tipo de relação. Os não-lugares são os espaços anônimos da vida cotidiana, como os terminais rodoviários e os aeroportos, são rotas de passagem que nos levam a lugares de fato.

Quando ouvi a palavra não-lugar pela primeira vez, relacionei o conceito com locais abandonados e ignorados socialmente. Imediatamente o signo que preencheu esse termo em minha cabeça foi um posto de gasolina abandonado em Guarapuava, bem na Avenida Moacir Júlio Silvestre, próximo ao Superpão Hiper. A mastodôntica estrutura está há anos em desuso. Era um não-lugar. Porém abandonado tornou-se um lugar, pois passou a ser habitado por pessoas que conferem significado ao espaço.

Posto abandonado fica entre a Avenida Moacir Júlio Silvestre e a Rua Saldanha Marinho.

Espaço que atualmente serve de moradia para três rapazes, que aqui ficarão conhecidos pelos codinomes  de Leandro*(18), Pedro*(27) e Augusto*(22) por questões de privacidade, e a pedido dos próprios entrevistados. “Nós moramos aqui faz uns dois anos já”, comenta Pedro, o mais velho. Ele mostra a organização da pequena moradia – uma barraca de dois lugares, uma cama no chão envolta por tijolos e um fogareiro improvisado – e diz que ajuda a cuidar dos carros que ficam estacionados ali no período comercial.

Estrutura é usada como moradia improvisada e estacionamento.

Fogão utilizado pelos moradores.

Durante meu tour pelo lugar, liderado por Pedro, reparo em uma placa da prefeitura municipal indicando as reformas da Rua Saldanha Marinho. “Eles colocam essa placa aí e parece que a gente não existe aqui, vão arrumar essa rua inteira, mas isso vai continuar aqui”, comenta Leandro. De fato, segundo a Secretaria de Habitação de Guarapuava, “O terreno é particular e qualquer problema não é da prefeitura”, como informou por telefone uma mulher chamada Sandra. Na verdade ela é uma funcionária pública da Secretaria de Habitação e Urbanismo da prefeitura de Guarapuava e que por sinal me atendeu com muita hostilidade ao ligar pela segunda vez para questionar sobre o lugar. Ela mesma afirmou que não tem sobrenome.

Dessa maneira, temos um não-lugar que era o posto de gasolina, que se transformou em lugar porque passou a ser habitado por pessoas, mas que é ignorado socialmente. Na prática, o lugar é um “não-lugar”, uma vez que não é problema de ninguém, nem dos proprietários, muito menos da prefeitura. É um lugar que não existe. Mas existe como não-lugar. Assim como os indivíduos que o habitam. Ao que parece são não-pessoas. Talvez o grande problema afinal não fosse o não-lugar, mas as não-pessoas. Mas sem preocupações, a Rua Saldanha Marinho está sendo revitalizada. Os proprietários do imóvel não foram localizados para comentar.

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