O avanço da industrialização, o aumento do consumo de combustíveis fósseis e a exploração intensiva dos recursos naturais agravaram o aquecimento global, a perda de biodiversidade e o desmatamento. Entre os impactos mais preocupantes está o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera (principalmente da queima de petróleo, carvão e gás natural), bem como a destruição de áreas florestais (especialmente a Amazônia), o que reduz a capacidade dos ecossistemas de absorver carbono, agravando assim as mudanças climáticas (SILVA, 2010). À medida que os impactos ambientais começaram a ser sentidos em diferentes partes do mundo, iniciativas de cooperação começaram a buscar soluções conjuntas para os problemas climáticos.
A UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) foi criada durante a Conferência Rio-92, popularmente conhecida como Eco-92. A partir deste acordo, as Conferências Anuais da ONU sobre Mudanças Climáticas (COPs) tornaram-se o principal espaço de negociação internacional para mudanças climáticas, reunindo representantes de vários países para discutir metas de redução de emissões, adaptação aos impactos ambientais e mecanismos de financiamento climático. Nas últimas décadas, essas reuniões contribuíram para a construção de importantes acordos internacionais (JACOBI et al., 2025; RODRIGUES, 2026).
As expectativas em torno da COP30 estavam diretamente ligadas ao agravamento da crise climática nos últimos anos. Secas, inundações, ondas de calor e outros eventos extremos de potencial devastador tornaram-se mais frequentes em todas as partes do mundo, inclusive no Brasil, questionando a capacidade dos governos de lidar com os problemas ambientais atuais. Este cenário exige metas e ações mais ambiciosas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (ARTAXO 2025); por isso, a conferência foi vista como uma oportunidade para fortalecer a cooperação internacional e impulsionar novos compromissos sobre mudanças climáticas.
A decisão de se escolher Belém como sede da COP30 que foi realizada no período de 10 a 21 de novembro de 2025 tornou a conferência ainda mais especial porque aproximou as negociações climáticas internacionais da realidade na Amazônia. Pela primeira vez, uma Conferência das Partes foi realizada no coração da maior floresta tropical do mundo (uma região frequentemente associada à conservação ambiental e aos debates sobre mudanças climáticas). Jacobi e colaboradores (2025) argumentam que, ao realizar o evento na Amazônia, a comunidade internacional prestou mais atenção aos desafios ambientais e sociais enfrentados pela região, tornando-a mais relevante para as discussões climáticas globais. Esperava-se, portanto, que a COP30 ajudasse a fortalecer a luta contra o desmatamento, expandir a proteção das florestas tropicais e reconhecer melhor o papel dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na preservação dos ecossistemas.
A relevância da floresta Amazônica é peça central para a regulação climática, armazenamento de carbono e manutenção da biodiversidade — razões pelas quais é estratégica para enfrentar as mudanças climáticas, por isso questões relacionadas ao desmatamento, conservação de ecossistemas e valorização dos povos indígenas e comunidades tradicionais estavam no centro das expectativas em torno da conferência. Jacobi e colaboradores (2025) e Louback, Pagotto e Witoto (2025) argumentam que a realização da COP30 na Amazônia deu a oportunidade de aproximar as negociações internacionais dos desafios concretos enfrentados na região, bem como aumentar a participação de grupos historicamente sub-representados nos debates climáticos.
A organização da COP30 em Belém enfrentou o desafio de preparar, em pouco tempo, uma cidade cuja infraestrutura urbana já era pressionada por carências de saneamento, drenagem e hospedagem. Embora governos tenham acelerado obras e criado alternativas — como hotéis flutuantes e alojamentos temporários —, parte das intervenções de saneamento e drenagem ainda estava incompleta quando o evento começou, sobretudo em áreas periféricas. A hospedagem também gerou forte preocupação: a oferta limitada e relatos de preços muito elevados levaram a ONU a recomendar que seus funcionários restringissem a participação, enquanto delegações buscavam acomodações compatíveis com seus orçamentos. Durante a conferência, um incêndio na Zona Azul provocou a evacuação do espaço e a suspensão temporária das atividades; segundo a ONU, 13 pessoas receberam atendimento por inalação de fumaça. (SASSINE, 2025a; ABNETT, 2025; COP30 PRESIDENCY; UN CLIMATE CHANGE, 2025)
A pressão logística se somou às tensões políticas internacionais que podem ter afetado as discussões e os resultados que seriam esperados da conferência. A ausência de uma delegação federal oficial dos Estados Unidos — descrita por parlamentares norte-americanos como um boicote do governo Trump — enfraqueceu a participação de um ator central nas negociações, embora isso não signifique que outros países tenham boicotado a conferência. (ABNETT et al., 2025b; CARVALHO, 2025)
Outro ponto que foi repetidamente discutido nos debates preparatórios da conferência foi que os países deveriam revisar os compromissos climáticos que haviam assumido. Os resultados globais mostraram que, até agora, as medidas adotadas ainda estão longe do necessário para alcançar as metas do Acordo de Paris, e os governos estavam sob pressão para apresentar metas mais ambiciosas e mostrar maior capacidade de implementá-las. Assim, a atualização das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) tornou-se um indicador do compromisso dos países em enfrentar as mudanças climáticas (ARTAXO, 2025).
As discussões que antecederam a COP30 também foram dominadas pelo debate sobre a transição energética. Muitos especialistas sentiram que a conferência poderia fornecer metas e ideias para substituir os combustíveis fósseis (a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa). A expansão do uso de energias renováveis e tecnologias menos poluentes foram frequentemente citadas como medidas a serem adotadas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e aproximar os países de alcançar as metas estabelecidas no Acordo de Paris. O financiamento climático foi outra questão que recebeu muita atenção na preparação para a COP30. Muitos países em desenvolvimento disseram que as metas de mudança climática não existem isoladamente dos recursos disponíveis para serem implementadas. Portanto, esperava-se que a conferência avançasse nas negociações sobre apoio financeiro e transferência de tecnologia, especialmente para os mais vulneráveis aos impactos climáticos. A falta de recursos ainda é um dos principais desafios para a implementação de medidas de adaptação e redução de emissões assumidas pelos governos (LOUBACK et al., 2025; RODRIGUES, 2026).
Após a COP30, realizada em Belém e frequentemente chamada de “COP da implementação”, o debate internacional se voltou à transformação dos compromissos do Acordo de Paris em ações concretas. A conferência obteve êxito em intenção de triplicar o financiamento climático para a adaptação até 2035, lançamento do chamado Fundo Amazônia, em inglês, Tropical Forest Forever Facility (TFFF), que levantou bilhões para a proteção de florestas tropicais, o monitoramento das políticas e a atualização das NDCs. Também ampliou a visibilidade da Amazônia, da proteção das florestas tropicais e da contribuição dos povos indígenas para a conservação ambiental (BRASIL, 2025; WASKOW et al., 2025).
Apesar desses avanços, permaneceram questões importantes sem solução. Não houve consenso sobre metas e prazos para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, e países em desenvolvimento continuaram a reivindicar mais recursos e uma divisão mais clara das responsabilidades pelo financiamento climático. As limitações dos mecanismos internacionais, somadas a interesses econômicos e disputas geopolíticas, também dificultaram compromissos mais concretos para conter o desmatamento e acelerar a transição energética. Assim, a COP30 reforçou o papel do Brasil nas discussões climáticas, mas evidenciou a distância entre as expectativas e os resultados alcançados.
Por: Maria Gabrieli Belo
REFERÊNCIAS
ABNETT, Kate. UN limits staff at COP30 climate summit over accommodation concerns. Reuters, 15 set. 2025a. Disponível em: https://www.reuters.com/sustainability/cop/un-limits-staff-cop30-climate-summit-over-accommodation-concerns-2025-09-15/. Acesso em: 18 out. 2026.
ABNETT, Kate; VOLCOVICI, Valerie; AHLANDER, Johan. Diplomats worry over possible disruption by an absent US at the COP30 climate summit. Reuters, 7 nov. 2025b. Disponível em: https://www.reuters.com/sustainability/cop/diplomats-worry-absent-us-could-still-seek-influence-cop30-climate-summit-2025-11-07/. Acesso em: 18 out. 2026.
ARTAXO, Paulo. COP-30 e o agravamento da crise climática: caminhos para a construção de uma sociedade sustentável. Estudos Avançados, São Paulo, v. 39, n. 114, e39114019, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1590/s0103-4014.202539114.003. Acesso em: 22 jun. 2026.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. COP30. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/cop30/cop30. Acesso em: 22 jun. 2026.
CARVALHO, Felipe de. Belém COP30 delivers climate finance boost and a pledge to plan fossil fuel transition. UN News — Climate and Environment, 22 nov. 2025. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2025/11/1166433. Acesso em: 18 out. 2026.
COP30 PRESIDENCY; UN CLIMATE CHANGE. Joint media statement from the COP30 Presidency and UN Climate Change. UNFCCC, 20 nov. 2025. Disponível em: https://unfccc.int/news/joint-media-statement-from-the-cop30-presidency-and-un-climate-change. Acesso em: 18 out. 2026.
COUTINHO LOUBACK, A.; MENEZES PAGOTTO, L.; WITOTO, V. Mudanças climáticas e contrapúblicos: perspectivas interseccionais para a COP30. CEBRI-Revista: Brazilian Journal of International Affairs, n. 15, p. 89-97, 2025. Disponível em: https://cebri-revista.emnuvens.com.br/revista/article/view/281. Acesso em: 28 jun. 2026.
JACOBI, Pedro Roberto; GUIVANT, Julia Silva; TEIXEIRA, Rylanneive Leonardo Pontes; AVERSA, Marcelo. COP 30 em Belém/Pará: mais uma COP? Ambiente & Sociedade, São Paulo, v. 28, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/asoc/a/kRqzDjJWgwqvjrwMbhr54jC/. Acesso em: 22 jun. 2026.
RODRIGUES, J. Convergências, divergências e disputas diante da emergência climática e da COP-30. Entre-Lugar, v. 17, n. 33, p. 372-413, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.30612/rel.v17i33.19096. Acesso em: 13 jul. 2026.
SASSINE, Vinicius. Belém tentou devolver vida aos canais até a COP30, mas coleta de esgoto não deslancha na periferia. Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 nov. 2025. Ambiente. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2025/11/belem-tentou-devolver-vida-aos-canais-ate-a-cop30-mas-coleta-de-esgoto-nao-deslancha-na-periferia.shtml. Acesso em: 12 out. 2026.
SILVA, Maria Luiza dos Santos Queiroz da. Mudanças climáticas: uma análise à luz da Convenção-Quadro das Nações Unidas e do Protocolo de Quioto. 2010. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Direito) – Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), Brasília, 2010. Disponível em: https://repositorio.uniceub.br/jspui/bitstream/235/9814/1/20565720.pdf. Acesso em: 15 jul. 2026.
WASKOW, David; GARCIA, Miriam, SROUJI, Jamal, SWABY, Gabriele, LARSEN, Gaia, COGSWELL, Nathan, ALAYSA, Natalia, OLIVEIRA,Mariana, ROBINSON, Melanie, BARBER, Charles, SANDRINI, Mirela and SILVERWOOD-COPE, Karen. Beyond the Headlines: COP30’s Outcomes and Disappointments. Washington, DC: World Resources Institute, 2025. Disponível em: https://www.wri.org/insights/cop30-outcomes-next-steps. Acesso em: 15 jul. 2026.
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