El Niño e suas Repercussões nos Eventos Climáticos Extremos no Brasil e no Mundo

El Niño e suas Repercussões nos Eventos Climáticos Extremos no Brasil e no Mundo

   O El Niño é um fenômeno natural que ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica e influencia as chuvas e as temperaturas em várias partes do mundo. Ele integra o fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENOS), que também inclui a La Niña, marcada pelo resfriamento dessas águas, e a fase neutra. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o ENOS é uma das principais fontes de variabilidade natural do clima global (OMM, 2023).

   O aparecimento do El Niño depende da interação entre o oceano e a atmosfera. Normalmente, os ventos alísios sopram de leste para oeste na zona equatorial do Pacífico, o que favorece a acumulação de águas quentes na porção ocidental do oceano. Durante a ocorrência do El Niño, esses ventos se enfraquecem e as águas quentes se dispersam até o Pacífico central e oriental. Como resultado, há uma mudança na circulação atmosférica, o que muda os padrões de pressão, umidade e precipitação. Essas mudanças podem afetar regiões distantes de onde tudo começou mostrando como os sistemas climáticos do planeta estão conectados (INPE, s.d.).

   É importante saber que El Niño não é o mesmo que as mudanças climáticas globais. O primeiro é um fenômeno natural passageiro, que ocorre de vez em quando e geralmente dura alguns meses, enquanto as mudanças climáticas representam mudanças duradouras nos padrões de temperatura e precipitação ao longo de décadas. O aquecimento global atual tem mais a ver com as emissões de gases de efeito estufa vindas da queima de combustíveis fósseis, do desmatamento e de outras atividades humanas. Mas o El Niño e o aquecimento global podem ocorrer juntos, aumentando as chances de recordes de temperatura e de eventos climáticos extremos (OMM, 2023; INPE, 2026).

   Um dos principais efeitos do El Niño no mundo é o aumento temporário da temperatura média global. Durante o El Niño, o oceano solta mais calor para a atmosfera em certas partes do mundo, o que afeta a temperatura do planeta. Se isso acontecer num momento de aquecimento global causado pelos seres humanos, as temperaturas podem ficar ainda mais altas. O El Niño de 2023 e 2024, por exemplo, ajudou a aquecer o mundo nesse período, mas o aumento de longo prazo da temperatura global é principalmente devido à influência humana. Assim, o fenômeno pode aumentar temporariamente os efeitos de um planeta que já está mais quente (OMM, 2023).

   Em diferentes regiões do mundo, o El Niño pode provocar efeitos distintos: enquanto partes da África Austral, da Indonésia e do Sudeste Asiático tendem a registrar menos chuvas e maior risco de seca, o leste africano pode ter períodos mais chuvosos. Essas mudanças afetam a disponibilidade de água, a produção de alimentos e os ecossistemas, e variam conforme a intensidade e a duração do fenômeno, a época do ano e as condições locais (OMM, 2023).

   Na agricultura, a irregularidade das chuvas e o aumento das temperaturas podem reduzir a produtividade. A seca prejudica lavouras, pastagens e rebanhos; já o excesso de chuva pode alagar plantações, provocar erosão e empobrecer o solo. Além das perdas no campo, esses impactos podem elevar os custos de produção e os preços dos alimentos, afetando sobretudo as populações mais vulneráveis e ampliando os riscos à segurança alimentar (OMM, 2023).

   Outro efeito importante acontece nos oceanos e nos ecossistemas marinhos. O aquecimento das águas do Pacífico oriental durante o El Niño reduz a subida de águas profundas, frias e ricas em nutrientes em certas regiões perto das costas do Peru e do Equador. Essa mudança pode diminuir a quantidade de comida disponível para organismos marinhos, prejudicando a pesca e as comunidades que dependem dela. Além disso, o aumento da temperatura dos oceanos pode intensificar o estresse sobre espécies marinhas e recifes de coral. Quando esses efeitos se juntam ao aquecimento global, à acidificação dos oceanos e a outras pressões ambientais, os ecossistemas ficam ainda mais vulneráveis (OMM, 2023; IPCC, 2021).

   No Brasil, os efeitos do El Niño dependem da região. Na Região Norte e Nordeste, principalmente em áreas da Amazônia, o El Niño pode ajudar a reduzir as chuvas, elevar as temperaturas e a piorar as secas. A diminuição do nível dos rios dificulta o transporte fluvial, a pesca e o acesso à água para comunidades ribeirinhas, a seca também afeta reservatórios, abastecimento e produção rural. Além disso, a vegetação exposta a longos períodos de estiagem fica mais suscetível a incêndios florestais. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o El Niño pode intensificar os extremos climáticos em um cenário já marcado pelo aquecimento global, aumentando os riscos ambientais e sociais na região (INPE, 2026).

    Na região Sul, o fenômeno costuma favorecer períodos de chuva intensa, que podem provocar enchentes e deslizamentos, além de causar danos a plantações, moradias, estradas e atividades econômicas. As chuvas registradas no Rio Grande do Sul em 2023 e 2024 ocorreram durante o El Niño, mas os impactos de um desastre também dependem das condições locais, da ocupação do território, da infraestrutura e da vulnerabilidade das comunidades (INMET, 2024; INPE, 2026; IPCC, 2022).

   A relação entre El Niño e mudanças climáticas merece atenção porque o aquecimento global aumenta a intensidade de vários extremos climáticos. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a influência humana já contribuiu para o aumento da frequência e da intensidade de ondas de calor e de chuvas intensas em várias regiões do mundo. Em um ambiente mais quente, a atmosfera pode reter mais vapor de água, o que favorece precipitações intensas quando as condições são favoráveis; ao mesmo tempo, o aumento da evaporação pode piorar a seca em regiões vulneráveis. Embora ainda existam dúvidas sobre como a frequência e a intensidade dos episódios de El Niño vão mudar no futuro, a variabilidade climática associada ao fenômeno pode se tornar mais preocupante à medida que o planeta continua aquecendo (IPCC, 2021).

   Portanto, El Niño é um fenômeno natural com efeitos que vão além das fronteiras dos países e afetam o clima, a economia, a agricultura, os recursos hídricos e a biodiversidade. Embora não seja a principal causa das mudanças climáticas atuais, ele pode agravar seus efeitos ao favorecer temperaturas elevadas, secas prolongadas e chuvas intensas em diferentes partes do mundo. Para diminuir os prejuízos, é preciso diminuir as emissões de gases de efeito estufa, combater o desmatamento, preservar os ecossistemas e investir em sistemas de monitoramento e alerta precoce. No Brasil e em outros países, o planejamento urbano, o uso sustentável da água e a adaptação da agricultura são medidas fundamentais para proteger a população e o meio ambiente diante dos desafios climáticos atuais e futuros (IPCC, 2022; OMM, 2023).

Por: Maria Gabrieli Belo e Fabrício Ventura Barsi

Referências bibliográficas

INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA (INMET). El Niño 2024: boletim de março. Portal INMET, 10 abr. 2024. Atualizado em: 11 abr. 2024. Disponível em: https://portal.inmet.gov.br/noticias/el-niño-2024-boletim-de-março. Acesso em: 06 jul. 2026.

INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). O que precisamos saber sobre o El Niño e seus impactos para o Brasil? 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/o-que-precisamos-saber-sobre-o-el-nino-e-seus-impactos-para-o-brasil/ . Acesso em: 05 jul. 2026.

INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). El Niño e La Niña. Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC). Disponível em: https://clima2.cptec.inpe.br/enos . Acesso em: 13 out. 2026.

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. Disponível em: https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/ . Acesso em: 07 ago. 2026.

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Cambridge: Cambridge University Press, 2022. Disponível em: https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg2/ . Acesso em: 07 out. 2026.

ORGANIZAÇÃO METEOROLÓGICA MUNDIAL (OMM). El Niño Southern Oscillation (ENSO). Genebra: Organização Meteorológica Mundial, 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/el-nino-southern-oscillation-%28enso%29 . Acesso em: 18 out. 2026.

 

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