Energias Renováveis e Impactos Ambientais: Avaliação da Expansão da Energia Solar e Eólica

Energias Renováveis e Impactos Ambientais: Avaliação da Expansão da Energia Solar e Eólica

   A transição para uma matriz energética de menor intensidade de carbono ganhou importância diante das mudanças climáticas e do crescimento da demanda por eletricidade. Entre as alternativas disponíveis, a energia solar fotovoltaica e a eólica se destacam por converterem a radiação solar e a força dos ventos em eletricidade. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2022) reconhece o papel das tecnologias de baixa emissão nos esforços de mitigação. A expansão dessas fontes, contudo, não elimina questões ambientais e sociais associadas à sua implantação.

   Durante a geração, sistemas solares e eólicos não dependem da queima contínua de combustíveis fósseis, ao contrário das usinas termelétricas convencionais. A produção dos painéis, das turbinas e de seus componentes, por sua vez, demanda matérias-primas, energia e transporte. Por essa razão, comparar tecnologias exige considerar as emissões associadas às diferentes etapas de produção e funcionamento, e não apenas aquelas emitidas durante a geração de eletricidade. Nugent e Sovacool (2014) discutem justamente as variações entre estudos de emissões de gases de efeito estufa de sistemas fotovoltaicos e eólicos.

   Nas grandes usinas solares, a ocupação do solo pode se tornar uma questão relevante, sobretudo quando os projetos avançam sobre áreas naturais ou agrícolas. A preparação do terreno pode envolver retirada de vegetação, movimentação de terra e abertura de vias, alterando a paisagem, a drenagem e as condições do solo. Lovich e Ennen (2011), ao examinarem o desenvolvimento de empreendimentos solares de grande escala no sudoeste dos Estados Unidos, descrevem possíveis efeitos sobre habitats e fauna e observam que a intensidade das consequências depende das características do local e do projeto.

   Uma forma de reduzir a pressão por novas áreas é aproveitar superfícies já construídas, como telhados, estacionamentos e edifícios industriais. Também se pode instalar sistemas em terrenos degradados ou combinar a geração solar com o cultivo agrícola. Dupraz e colaboradores (2011) investigaram essa última possibilidade, conhecida como agrivoltaica, por meio de modelos que combinavam painéis fotovoltaicos e culturas alimentares. Os autores apontam o potencial de uso compartilhado da terra, mas ressaltam a necessidade de avaliar o desempenho dos sistemas em condições reais. Os resultados podem variar conforme as culturas, o clima e a configuração dos painéis.

   A infraestrutura eólica também se estende além das fundações das turbinas. Estradas de acesso, plataformas de montagem, subestações e linhas de transmissão ampliam a área de intervenção e, em certos contextos, podem fragmentar habitats ou alterar o uso da terra. Ao mesmo tempo, os espaços entre as turbinas podem continuar disponíveis para algumas atividades agropecuárias. A integração dessas fontes à rede elétrica exige, ainda, atenção à flexibilidade e à expansão da infraestrutura do sistema — temas discutidos pela Agência Internacional de Energia no relatório Renewables 2023, publicado em 2024.

   No Brasil, a expansão de usinas solares e parques eólicos envolve também disputas sobre a posse e o uso da terra. Embora projetos se distribuam por diferentes regiões, o Nordeste concentra empreendimentos favorecidos pela disponibilidade de sol e vento. Klingler e colaboradores (2024), em artigo publicado na Nature Sustainability, analisam a apropriação de terras públicas e comuns associada a projetos eólicos e solares no país. O estudo aponta que questões de transparência fundiária e de governança podem repercutir sobre comunidades rurais; a participação das populações afetadas e o respeito aos seus direitos são, por isso, componentes importantes de uma transição energética socialmente responsável.

   Os efeitos sobre a biodiversidade variam conforme o ecossistema e a forma como cada empreendimento é implantado. Usinas solares construídas em áreas naturais podem alterar a cobertura vegetal e reduzir ou fragmentar habitats. As obras e a circulação de máquinas também podem perturbar espécies da fauna e organismos do solo. Lovich e Ennen (2011) registram que, à época de seu estudo, ainda havia limitações nas evidências disponíveis para avaliar com precisão os efeitos acumulados de instalações solares em populações de animais. Ambientes protegidos ou reconhecidos por sua sensibilidade ecológica merecem atenção particular.

   Nos parques eólicos, aves e morcegos podem colidir com as turbinas, e a presença das estruturas pode interferir no deslocamento de algumas espécies. Estradas e linhas de transmissão também podem contribuir para a fragmentação de ambientes. As diretrizes de 2014 da Convenção sobre Espécies Migratórias e de organizações parceiras recomendam levantamentos e monitoramento antes e depois da instalação, além de medidas de mitigação, como a interrupção das turbinas em situações de risco elevado. A escolha das medidas deve levar em conta as espécies presentes e as condições locais.

   O descarte dos equipamentos é outro ponto a considerar. Painéis fotovoltaicos podem se tornar resíduos após danos, falhas ou o fim de sua utilização; sua composição inclui vidro, alumínio, silício, polímeros e cobre, entre outros materiais. Um relatório conjunto da Agência Internacional de Energia Renovável e do Programa de Sistemas Fotovoltaicos da Agência Internacional de Energia (IRENA; IEA-PVPS, 2016) projetou o crescimento dos volumes de módulos descartados e examinou oportunidades de reaproveitamento e reciclagem. A recuperação de materiais pode reduzir o desperdício e contribuir para diminuir a demanda por novas matérias-primas.

   A gestão dos resíduos também é um desafio para a energia eólica. Componentes como aço, cobre e alumínio podem ser recuperados, enquanto as pás são mais difíceis de reciclar por serem feitas de materiais compósitos, que combinam fibras e resinas. A Agência Europeia do Ambiente (EEA, 2021) aborda os resíduos emergentes associados à transição para energia limpa sob a perspectiva da economia circular. Entre as soluções em desenvolvimento estão o reaproveitamento de componentes, a recuperação de materiais e a fabricação de pás mais facilmente recicláveis.

   As tecnologias renováveis dependem ainda da extração de recursos como silício, alumínio, aço, cobre e outros minerais. A mineração pode estar associada ao consumo de água, à geração de rejeitos e à alteração de habitats. No relatório The Role of Critical Minerals in Clean Energy Transitions, a IEA (2021) examina a importância dos minerais para tecnologias de energia limpa e discute desafios relacionados às cadeias de fornecimento. Melhorar a eficiência no uso dos materiais e fortalecer a recuperação e a reciclagem são caminhos para reduzir a necessidade de novas extrações.

   A comparação entre fontes de eletricidade deve considerar tanto as emissões quanto outros efeitos associados à produção e ao descarte dos equipamentos. As normas ISO 14040 e ISO 14044, publicadas em 2006, estabelecem princípios, requisitos e orientações para avaliações de ciclo de vida. No caso da energia solar e da eólica, estudos como o de Nugent e Sovacool (2014) indicam emissões de gases de efeito estufa geralmente inferiores às de fontes fósseis, embora os resultados variem conforme a tecnologia e os pressupostos adotados.

   A energia solar e a eólica são importantes para a descarbonização da matriz elétrica, mas seus benefícios dependem das condições em que os projetos são implantados e operados. A ocupação do solo, a biodiversidade, as relações fundiárias, os resíduos e a obtenção de matérias-primas são questões distintas, que pedem respostas adequadas a cada contexto. A combinação de inovação, proteção ambiental, gestão de materiais e participação social pode aproximar a expansão das renováveis de uma transição energética mais justa e sustentável.

Por: Fabricio Ventura Barsi

REFERÊNCIAS

CONVENTION ON MIGRATORY SPECIES (CMS). Renewable Energy Technologies and Migratory Species: Guidelines for Sustainable Deployment. Bonn: CMS, 2014. Disponível em: https://www.cms.int/. Acesso em: 07 ago. 2026

DUPRAZ, C., MARROU, H., TALBOT, G., DUFOUR, L., NOGIER, A. e FERARD, Y. Combining solar photovoltaic panels and food crops for optimising land use: Towards new agrivoltaic schemes. Renewable Energy, v. 36, n. 10, p. 2725–2732, 2011. DOI: 10.1016/j.renene.2011.03.005 .

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HSU, D. D. et al. Life cycle greenhouse gas emissions of crystalline silicon photovoltaic electricity generation: Systematic review and harmonization. Journal of Industrial Ecology, v. 16, supl. 1, p. S122–S135, 2012. DOI: 10.1111/j.1530-9290.2011.00439.x .

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INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Renewables 2023: Analysis and Forecast to 2028. Paris: IEA, 2024. Disponível em: https://www.iea.org/reports/renewables-2023 .Acesso em: 10 ago. 2026

INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION (ISO). ISO 14040:2006 — Environmental Management: Life Cycle Assessment: Principles and Framework. Genebra: ISO, 2006a. Disponível em: https://www.iso.org/standard/37456.html .Acesso em: 07 ago. 2026

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INTERNATIONAL RENEWABLE ENERGY AGENCY (IRENA); INTERNATIONAL ENERGY AGENCY PHOTOVOLTAIC POWER SYSTEMS PROGRAMME (IEA-PVPS). End-of-Life Management: Solar Photovoltaic Panels. Abu Dhabi: IRENA, 2016. Disponível em: https://www.irena.org/publications/2016/Jun/End-of-life-management-Solar-Photovoltaic-Panels .Acesso em: 10 ago. 2026

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2022: Mitigation of Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press, 2022. Disponível em: https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg3/ . Acesso em: 15 out. 2026

KLINGLER, M., AMELI, N., RICKMAN, J. e SCHMIDT, J. Large-scale green grabbing for wind and solar photovoltaic development in Brazil. Nature Sustainability, v. 7, p. 747–757, 2024. DOI: 10.1038/s41893-024-01346-2 .

LOVICH, J. E.; ENNEN, J. R. Wildlife conservation and solar energy development in the desert Southwest, United States. BioScience, v. 61, n. 12, p. 982–992, 2011. DOI: 10.1525/bio.2011.61.12.8 .

NUGENT, D.; SOVACOOL, B. K. Assessing the lifecycle greenhouse gas emissions from solar PV and wind energy: A critical meta-survey. Energy Policy, v. 65, p. 229–244, 2014. DOI: 10.1016/j.enpol.2013.10.048 .

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